20.3.17

oi,

você não se atreve a me dirigir um único pensamento mais, tão pouco me fazer qualquer pergunta que seja, mas estou bem assim, sim. Aliás, muito bem, bem obrigada e ocupada, pois minha mãe quebrou o braço e está com atestado de cento e vinte dias. Estou descansada, mesmo com todos os afazeres domésticos e demais coisas que minha mãe fazia, tudo literalmente nas minhas costas - talvez seja por isso que de vez em quando sinto uma dor perto do insuportável ao final da coluna. Estou acordando no horário de sempre, mas não indo ao trabalho e sim preparando alguma coisa comestível para o meu pai almoçar às 8h30min, depois varro a área e a calçada de casa antes de ir caminhar um pouco no parque para acalmar os ânimos. Quando a caminhada cumpre seu objetivo com sucesso, tomo banho assim que chego em casa e logo vou buscar minha prima na escola, caso contrário, vou com aquele cheiro desagradável de suor que já secou na roupa no mínimo umas três vezes - resultado de uma vassoura na mão e de três quilômetros percorridos. Volto da escola carregando a bolsa de rodinha pela alça menor na mão esquerda e a minha prima na direita, sinto o cheiro de feijão logo que chego no portão de casa, e lá vou eu encostar a barriga no fogão fazer a parte mais difícil do almoço que minha mãe não consegue com um braço. Todo dia tem que fazer ovo, fritar um steak sabor queijo e preparar alguma salada para nós. O ovo é tranquilo quando é para cozinhar (digo isso porque não sei lidar muito bem com frituras), só não sei quando é para desligar, mas minha mãe me orienta; o steak posso tranquilamente jogar de olhos fechados na frigideira; e a salada me incomoda porque não tenho paciência nem habilidade para ficar cortando ou descascando do jeito que minha mãe gosta. Eu me recuso a preparar qualquer tipo de carne, aí minha tia vem aqui de vez em quando identificar os pedaços jogados no freezer e faz como bem entende, principalmente aquelas que o cheiro impregna em tudo e que me metem nojo em ter que lavar qualquer utensílio que tenha entrado em contato com elas. Aí eu aturo minha prima até o começo da noite (e isso requer um esforço enorme em fingir que sou a pessoa mais tranquila do mundo), e quando ela vai embora eu posso finalmente respirar em paz, mas durante esse processo de inspirar e expirar eu já tenho que fazer o jantar enquanto minha mãe reclama por alguma coisa que deixei estragar na geladeira. Espero todos acabarem de sujar o que precisam na cozinha para poder lavar a louça antes de tomar banho e ficar um pouco no celular antes de dormir. Mas está tudo certo, tudo nos conformes. Estou bem. Essa é a segunda vez que tiro férias no meu trabalho e posso tranquilamente considerá-la a pior de todos os meus vinte e poucos anos, mas está tudo tranquilo, pois poderia ser pior. Ter só a minha mãe me enchendo o saco está de bom tamanho e assumir o papel de mãe como obrigação também.