28.3.17

a incerteza escreve sozinha

Acordei há uns minutos pensando em você e, sabe, faz tempo que tuas lembranças não me pegavam numa porrada tão forte ao ponto de me fazer chorar. Não é choro de tristeza ou de medo, juro, nem é por causa da chuva forte ou da sua ausência. Sei que faz um pouco mais de um ano que declararam nosso fim, mas é que é muito mais difícil do que eu esperava e do que os outros pensam, até dizem que estou louca por ainda manter os mesmos hábitos de quando ainda estávamos fisicamente juntos, mas não me importo... Nenhuma poesia sua aconselhava viver no passado, pois o futuro é incerto e imprevisível demais para voltarmos nossos pensamentos e preocupações para o que não faz mais parte do nosso presente. São três horas da madrugada e eu fui dormir mais de meia-noite, ah, depois que você se foi, nunca mais minhas noites de sono foram por inteiras, e em meio a esses meus fragmentos noturnos, você aparece, sem mais nem menos, e às vezes eu chego à conclusão de que não consigo te superar. Não diria esquecer, só queria lidar melhor com a pessoa que você foi, é, significou e significa para mim - e você merece o melhor. Por vezes não aceito só falar de ti no passado porque é impossível, considerando que a todo tempo parece que meus pensamentos fazem questão de te eternizar de algum modo. Apesar de ser a sua Senhorita Incerteza, nunca tive tanta certeza em te querer aqui, não só o que te pertence, eu te queria poetizando nos seus exatos 1,93cm com todos os seus devaneios e versos de efeito que rimam perfeitamente. Queria que você estivesse de novo em minha vida para eu poder escrever como antes, era tudo tão mais bonito e agradável. Queria o seu mundo colorido tentando se mesclar ao p&b que se tornou o meu. Queria sentir aquela pressãozinha que sua presença me trazia de que preciso soltar umas palavras, ditas ou escritas, pois você as merece de algum modo, queria que me pedisse um texto, mesmo sabendo que não é fácil - pelo menos para mim - tirar umas palavras assim de uma hora para outra, por mais inspirador que você seja, queria essa sensação de que eu tenho palavras a extravasar! Palavras! O que me fez pegar o celular para escrever hoje foi o fato de ter acordado na ilusão de que estava aqui, na verdade, acho que eu estava sincronizada com o sonho. Está chovendo um monte nesse momento, parece que os céus se concentraram em cima da nossa casa, e eu revivia uma das noites mais tensas de toda a minha vida em minha mente, aquela que o mundo se acabava em água sobre nossas cabeças e você tentava me confortar com um abraço cuja força nunca havia subestimado. Você se lembra? Acho que houve uma conexão do meu inconsciente com o consciente, chovia naquela noite aqui dentro e chove agora lá fora, e virou uma pequena bagunça aqui nos meus pensamentos, aí acordei - e para completar, ainda senti vontade de escrever. Estávamos deitados na cama, não como sempre, pois era eu quem estava do lado direito e você do esquerdo, e a luz do abajur em cima do criado-mudo estava escondida atrás de seu quase um metro de ombros, o que me permitia ver um leve clarão iluminando a janela à minha frente. Você estava tão quente naquele abraço ao ponto de eu temer que o tridente tatuado no seu antebraço me queimasse a qualquer momento, logo o direito, que se encaixava certinho na minha cintura, e eu ganhasse mais uma cicatriz para minha coleção. Eu sempre fui muito medrosa, cheia dos medos que sempre têm uma tragédia por trás, até uma chuva mais intensa me deixava em desespero - a justificativa se deve ao fato de eu ter perdido minha casa na infância por causa da violência da natureza... E você sempre tão corajoso, totalmente o meu oposto, nunca pareceu temer nada. Até que o seu mal estar, que incluía fraqueza e tontura rotineiros, se manifestou naquele exato momento em que você tentava desviar meus pensamentos catastróficos de dezessete anos atrás, e senti que seu nariz em meu rosto estava tão molhado quanto o meu, sua boca foi diminuindo o ritmo que me soltava suas palavras calmas, seu corpo já não estava tão quente e o seu abraço foi ficando mais leve... Logo percebi que você não estava bem de novo, pois o líquido que vertia de seu nariz não era em consequência de estar chorando demais ou um resfriado ou manifestação alérgica, até porque você nunca tinha chorado na minha frente nem estava resfriado tão pouco era alérgico a coisa alguma, era sangue. Sangue. A sua pressão arterial poderia estar baixa demais também, pois reparei na palidez da sua face e o roxo que estavam seus lábios, que mesmo com toda aquela barba, foram os primeiros que se destacaram sob meus olhos, e eu me apavorei toda. Você não poderia ficar em casa e eu não poderia sequer encarar aquela chuva, entrei em desespero, e me lembrei que "poder" é diferente de "conseguir" e fui a favor da questão dos significados das palavras que definem a impotência humana e, quando dei por mim, eu estava sozinha naquele hospital em uma crise de choro incontrolável. Se eu não estivesse gritando e inquieta, ninguém repararia que eu estava chorando porque eu estava ensopada. Foi a primeira vez, depois de anos, que a chuva pesada me atingiu e eu consegui lidar com ela de uma maneira menos conflituosa, ocultando parcialmente meu sofrimento. Uma bela coincidência "chuva" e "choro" terem as mesmas quantidades de letras e uma sonoridade agradável, como uma vez você escreveu, que se sentiu aliviado por ter chorado na chuva porque além de lavar sua dor silenciosamente, ninguém sabia que estava chorando e passando por todo esse processo de transformação interna. E nessa loucura toda de te ver sangrando e depois ter o choque brutal de só ver pessoas de branco transitando pelo hospital, percebi que o fim estava ali, mesmo sem ninguém ter precisado me informar nada. E só me lembro de um homem de jaleco (e ele se parecia muito contigo, todo forte e alto) ter chegado até mim e eu pude ouvir "infelizmente não resistiu" antes de um vazio ensurdecedor me tomar e, depois, a chuva forte. Eu me enchi da chuva. Foi uma surdez temporária que serviu de transição do sonho para a realidade, pois acordei bem aí, a chuva do sonho é a que cai agora. E todos os nossos sentimentos desesperançados de dias melhores me vieram à tona. O bom pode ser recíproco, mas o ruim sempre retorna, você me disse uma vez em uma das nossas conversas que tínhamos como parâmetros de definição do futuro e eu registrei a frase com uma caneta bic no criado-mudo. Eu dormia e acordava todos os dias com aquelas palavras, agora mesmo consigo senti-las às cegas com a ponta dos dedos e, quando não as sinto, o criado-mudo as recita para mim, ah, falando nisso, ainda nem tirei minha aliança. E parece que agora estou sentindo seus braços em mim enquanto a chuva cai lá fora, seria loucura? Ela já não tem me incomodado tanto, você poderia sentir orgulho de mim (ou você conseguiria se orgulhar?), pois foi com destino à sua transcendência que enfrentei meu medo da chuva e acredito ir bem com o medo que tinha de te perder ou, pior, de nos perder. Você poderia ter compartilhado mais das suas palavras comigo naquela noite, mas não te culpo, eu que deveria ter me atentado mais às pistas, como você me ensinou na disciplina de analisar um texto literário. Estava tudo tão diferente, chovia há dias, mas não tão forte assim, estávamos deitados em posições diferentes, o abajur estava aceso sem necessidade, você me abraçava tão forte! Por que chovia tão forte? Para que eu te desse um motivo para compartilharmos nossos medos (e líquidos). Por que me abraçava forte? Para que eu também não sentisse o seu medo ao passo em que parecia me acalmar com o meu. Por que estávamos deitados em lugares trocados? Para que eu ficasse encarando meu medo diretamente, que estava visível através da janela à centímetros de mim, e para que a luz do abajur não me incomode. Por que o abajur estaria aceso? Para que eu pudesse ver de imediato quando eu percebesse que sangrava pela cara pálida e iluminar para quem quisesse ver a frase que cravei no criado-mudo. São apenas questionamentos aleatórios que podem nem fazer sentido, por exemplo, quem é que questiona a natureza e sua intensidade? Cadê você para me ajudar nos questionamentos acerca dos fatos inexplicáveis? Se a vida for considerada ficção, talvez eu pudesse fazer algum comentário e você rabiscaria um poema. A arte seria a representação da vida e, lendo seus escritos, agora acredito que o processo foi invertido, isto é, a vida representou a arte naquele 11 de janeiro. Você temia e previu tudo e ainda registrou, ah, eu deveria ter me atentado mais às coisas. E desde quando você se foi, agora sou eu quem tenho escrito cada vez mais umas palavras que provavelmente não alcançarão seus lábios, não tão brilhantes como as tuas e nem cheias dos enigmas a serem desvendados, mas ainda assim voltadas a ti... Era tão bonitinho quando você me perguntava se a luz do computador me atrapalhava quando estávamos para dormir e eu sempre negava, mesmo que minha sensibilidade à luz gritasse que sim, pois eu nunca quis interromper seu momento noturno de criação. E agora, de vez em quando me pego involuntariamente olhando para trás para ver se a luz do celular não está na direção de seu rosto, mas é em vão. É automático, não consigo evitar. Além de louca, dizem que não está certo eu continuar do mesmo jeito que sempre fomos, mas não mudar nesse aspecto me tranquiliza. Talvez eu fique mal caso precise mudar. Sua ausência presente ainda me conforta, até mesmo num momento desse, em plena madrugada chuvosa, numa das parcelas do meu sono com direito a juros - e eles já estão bem altos em forma de olheiras e cansaço, mas sem problemas. Eu sinto sua falta pra caramba... Agora vou tentar pegar no sono de novo com as minhas e as tuas palavras me embalando.